“O Imbecil Juvenil” é um ensaio provocador em que Olavo de Carvalho desafia a visão romantizada da juventude como um período de rebeldia, independência e amor à liberdade. O autor argumenta que, ao contrário dessa idealização, os jovens frequentemente exibem um comportamento determinado pelo conformismo, pelo “espírito de rebanho” e pela subserviência às pressões do grupo. Ele descreve a adolescência como uma fase de imitação servil, movida pelo desejo mimético – conceito emprestado de René Girard – em que o jovem busca aceitação no “mundo grande” dos pares, sacrificando sua individualidade em troca de aprovação.
Um dos méritos do texto é sua capacidade de desconstruir um mito cultural amplamente aceito. Olavo utiliza uma linguagem direta e incisiva, típica de seu estilo polêmico, para expor o que considera uma hipocrisia: a exaltação da juventude como símbolo de minoria. Ele fundamenta sua crítica em observações pessoais e em uma leitura psicológica aguda, indicando que a rebeldia juvenil contra pais e professores é, na verdade, um “teatrinho” – um jogo seguro, pois os adultos não retaliariam com força total. Essa perspectiva é interessante por inverter a narrativa tradicional e convidar o leitor a refletir sobre a autenticidade das atitudes juvenis.
É uma verdade sutil, mas evidente: adolescentes rebeldes desafiam seus pais com uma ousadia que mostraram aos colegas. Criticam, ignoram ou até agridem, sabendo que o amor parental é um escudo que os protege de represálias definitivas. Pais, por mais que se frustrem, não destroem — perdoam, acolhem, persistem. Já os amigos, volúveis e imprevisíveis, podem retaliar sem piedade, e essa incerteza freia a rebeldia. Há uma segurança na vulnerabilidade de quem ama, uma confiança que desarma o medo e libera a língua.
Mas falar de adolescentes é fácil. E quanto nós nos comportamos e, mesmo chamando por outro nome, padecemos dos mesmos males? A reflexão de Olavo traz ao centro do texto a rebeldia, mas na periferia de sua análise orbita o medo da desaprovação, a covardia e o sentimento de submissão ao grupo.
Os adultos têm o mesmo padrão de comportamento, mas julgam fazer/não fazer por motivos diferentes e enquanto o adolescente peca pela aceitação, o adulto erra por uma suposta segurança. Sim, o mesmo desenho do “imbecil juvenil” maduro (ou não maduro) torna-se adulto. Quando, por exemplo, acompanhamos o tratamento que em certas abordagens os adultos dão aos Policiais.
Essas figuras de autoridade que juram proteger tornam-se alvos fáceis de filmagens, denúncias e ataques. A multidão os encara com uma coragem que evapora diante de um criminoso. Certamente você, caro leitor, já assistiu algum vídeo em que um policial é atacado em público, ofendido, agredido e filmado, onde o cidadão que filma diz saber de seus direitos. Dificilmente o mesmo acontecerá com um chefão do crime organizado. Por quê? Simples, o bandido, livre das amarras da lei, é um risco real — pune, fere, mata. O policial, mesmo com poder, está preso às regras, e a sociedade sabe disso: ele não "destrói" sem consequência. É a mesma lógica do adolescente — o grito é mais alto onde o “perdão” é garantido.
Mas o paralelo se aprofunda se pesarmos nas entranhas das cidades do interior, onde prefeitos e vereadores, senhores de feudos modernos, negam direitos com mãos de ferro. Em algumas cidades, como algumas do agreste pernambucano, cidadãos são perseguidos, silenciados e privados de ingresso na carreira pública por meio de concurso público — e ali, a rebeldia some. O poder local não ama seus opositores e sempre tem uma desculpa para alegar o interesse público ou a falta dele. A política do interior não perdoa porque a lei que o vigia geralmente está dormindo. A política provinciana de caudilho, esmaga sem hesitar, como o criminoso nas ruas. Não há câmeras que possam filmar porque o cidadão obedece à regra do adolescente, que é a mesma regra do policial e do traficante, desta forma, não há denúncias mais graves, só um medo que cala. Enquanto o policial é filmado por representar a lei que falha, o político do interior é temido por aparentemente ser imune a ela.
O que isso revela? Que, independentemente de ser adolescente, jovem ou idoso, a coragem floresce contra quem se contém, e o silêncio reina diante de quem não tem freios. É uma dança de confiança e temor, onde o fraco se ergue contra o forte que o ama ou o protege, mas se curva ao forte que o despreza ou o ameaça. Talvez seja essa a ironia da condição humana: só desafiamos quem nos dá a certeza da redenção. Ainda hoje, 2025 anos depois, é muito mais fácil cuspir e pendurar um inocente (que não nos ataca) em uma cruz do que se erguer contra todo o exército Romano. Olhando por essa ótica é bastante desconfortável pensar que, talvez, o “imbecil juvenil” de Olavo de Carvalho, sejamos todos nós e já não somos tão jovens.
José Jadiel de Andrade - OAB-PE 53646 (Advogado, especializado em direito penal, medicina legal e perícia criminal, licenciado em filosofia).
REFERÊNCIAS
https://olavodecarvalho.org/o-imbecil-juvenil/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ren%C3%A9_Girard

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